sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Dourada

 
 
Ofuscou minha visão, a luz de quando aquelas portas se abriram. Meus dedos podiam tocar, embora não fossem matéria, as costas nuas de uma canção antiga, cujo hálito acalentava minha desorientação. Trazia sobre um prato o meu passado, enquanto apontava para a escuridão onde estava o meu futuro: nasci não para possuir, mas para saber somente. É um fardo que me é entregue em noites de desassossego, sobre as quais reinam ventos que assoviam e os lobos de choro mais sentido, e cujos arrebóis que as encerram sangram sobre pequenos pedaços de querer espatifados ao se atirar do cume rarefeito de algum pensamento sóbrio.
 
Subindo vagarosamente pela pele eriçada, por toda a extensão concupiscente daquele tecido de carne tramado em neon, até a nuca, que mordiscava meu desejo, e de onde pendia até os seios um dourado de chave, que ela usou para destrancar o segredo: que eu nunca estive só, e que a ela, sempre pertenci. Só que, a gente, para acreditar, precisa se desvencilhar dessa coisa inebriante que é a lucidez. Poentes incríveis explodem para vazios desabitados, tão fascinantes quanto as pequenas mentiras que escolhemos todos os dias para nos enganar a nós mesmos.
 
Tem horas em que eu digo: "meu Deus, eu estou partido ao meio". Mas, ei, esse sou eu tentando preservar aquela criança assustada que se esconde em minhas risadas, enquanto que o adulto maduro já percebeu que o calvário sensorial sufoca, mas não cala um coração que canta sem motivo. Para alguns é a única forma possível de existência, porque nunca se rejeita a vida. Pois, no inconsciente, todo mundo deseja crer na ilusão, todo mundo quer gritar por socorro e inalar de novo esperança.
 
Vida, a gente implora, a gente rasteja, a gente crava as unhas no vapor e rasga cada molécula de oxigênio para continuar existindo, porque, no fundo, se sabe que nada disso é sobre a vergonha de ter ficado nu, mas sim, sobre a petulância de sustentar no rosto um sorriso triunfante de deboche.

No íntimo, todos querem concordar que não se trata da desumanizante indiferença que flagela, mas sim, da audácia que coroa: desafiar a percepção vulgar e entender que no lado selvagem do espelho, existe, também, uma verdade, não precisamente aquela mesma que gostaríamos que existisse, mas a versão que foi possível: real, mas que habita vales inacessíveis de solidão.
 
Até que a canção para de ser sussurrada, olhos ainda embevecidos se abrem uma vez mais para a embriaguez a que chamamos de realidade. É possível flagrar uma ou outra sensação mais distraída ainda pairando no ar. Às vezes, do que se fez, ficam marcas. Muita coisa se perde. Mas certamente nada nunca mais será o mesmo. Vida que se renovou.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Wounded Birds



Por trás do sorriso que encanta multidões, eu enxergo dor. Por trás do rosto pálido, que estampa calendários, eu escuto o grito de socorro. Mas você não vai deixar eu me aproximar, passarinho. Você não vai confiar. Vai se assustar e voar.
 
Talvez o meu jeito desengonçado ponha tudo a perder, ou talvez, eu nunca tenha tido a menor chance. Talvez seja a minha condenação enxergar o que não me é dado a curar. Talvez haja uma explicação para o fato de que eu consigo lembrar o movimento que a tua barriga nua fazia ao respirar.
 
Talvez o teu riso seja o sol que eu nunca vou alcançar. Talvez os teus lábios sejam o alimento pelo qual eu serei eternamente faminto. Talvez a paz que tu me trarias seja a guerra da qual eu jamais sairei com vida. Talvez o sonho revelado por tuas mãos em concha seja o pesadelo do qual eu não posso acordar.
 
Mas eu só te vejo passarinho: machucada em sua risonha inocência, violada em sua gentil confiança. Quisera eu te puxar para pertinho do meu calor e curar onde te mais dói, mas você voou, passarinho, e eu fiquei só. Que bom que foi para longe de mim.