Por trás do sorriso que encanta multidões, eu enxergo dor. Por trás do rosto pálido, que estampa calendários, eu escuto o grito de socorro. Mas você não vai deixar eu me aproximar, passarinho. Você não vai confiar. Vai se assustar e voar.
Talvez o meu jeito desengonçado ponha tudo a perder, ou talvez, eu nunca tenha tido a menor chance. Talvez seja a minha condenação enxergar o que não me é dado a curar. Talvez haja uma explicação para o fato de que eu consigo lembrar o movimento que a tua barriga nua fazia ao respirar.
Talvez o teu riso seja o sol que eu nunca vou alcançar. Talvez os teus lábios sejam o alimento pelo qual eu serei eternamente faminto. Talvez a paz que tu me trarias seja a guerra da qual eu jamais sairei com vida. Talvez o sonho revelado por tuas mãos em concha seja o pesadelo do qual eu não posso acordar.
Mas eu só te vejo passarinho: machucada em sua risonha inocência, violada em sua gentil confiança. Quisera eu te puxar para pertinho do meu calor e curar onde te mais dói, mas você voou, passarinho, e eu fiquei só. Que bom que foi para longe de mim.
