Ofuscou minha visão, a luz de quando aquelas portas se abriram. Meus dedos podiam tocar, embora não fossem matéria, as costas nuas de uma canção antiga, cujo hálito acalentava minha desorientação. Trazia sobre um prato o meu passado, enquanto apontava para a escuridão onde estava o meu futuro: nasci não para possuir, mas para saber somente. É um fardo que me é entregue em noites de desassossego, sobre as quais reinam ventos que assoviam e os lobos de choro mais sentido, e cujos arrebóis que as encerram sangram sobre pequenos pedaços de querer espatifados ao se atirar do cume rarefeito de algum pensamento sóbrio.
Subindo vagarosamente pela pele eriçada, por toda a extensão concupiscente daquele tecido de carne tramado em neon, até a nuca, que mordiscava meu desejo, e de onde pendia até os seios um dourado de chave, que ela usou para destrancar o segredo: que eu nunca estive só, e que a ela, sempre pertenci. Só que, a gente, para acreditar, precisa se desvencilhar dessa coisa inebriante que é a lucidez. Poentes incríveis explodem para vazios desabitados, tão fascinantes quanto as pequenas mentiras que escolhemos todos os dias para nos enganar a nós mesmos.
Tem horas em que eu digo: "meu Deus, eu estou partido ao meio". Mas, ei, esse sou eu tentando preservar aquela criança assustada que se esconde em minhas risadas, enquanto que o adulto maduro já percebeu que o calvário sensorial sufoca, mas não cala um coração que canta sem motivo. Para alguns é a única forma possível de existência, porque nunca se rejeita a vida. Pois, no inconsciente, todo mundo deseja crer na ilusão, todo mundo quer gritar por socorro e inalar de novo esperança.
Vida, a gente implora, a gente rasteja, a gente crava as unhas no vapor e rasga cada molécula de oxigênio para continuar existindo, porque, no fundo, se sabe que nada disso é sobre a vergonha de ter ficado nu, mas sim, sobre a petulância de sustentar no rosto um sorriso triunfante de deboche.
No íntimo, todos querem concordar que não se trata da desumanizante indiferença que flagela, mas sim, da audácia que coroa: desafiar a percepção vulgar e entender que no lado selvagem do espelho, existe, também, uma verdade, não precisamente aquela mesma que gostaríamos que existisse, mas a versão que foi possível: real, mas que habita vales inacessíveis de solidão.
No íntimo, todos querem concordar que não se trata da desumanizante indiferença que flagela, mas sim, da audácia que coroa: desafiar a percepção vulgar e entender que no lado selvagem do espelho, existe, também, uma verdade, não precisamente aquela mesma que gostaríamos que existisse, mas a versão que foi possível: real, mas que habita vales inacessíveis de solidão.
Até que a canção para de ser sussurrada, olhos ainda embevecidos se abrem uma vez mais para a embriaguez a que chamamos de realidade. É possível flagrar uma ou outra sensação mais distraída ainda pairando no ar. Às vezes, do que se fez, ficam marcas. Muita coisa se perde. Mas certamente nada nunca mais será o mesmo. Vida que se renovou.
